Sentia o abdômen pesado, estava sentado nessa posição já fazia algum tempo, o primeiro botão da calça jeans surrada estava aberto para liberar a pressão, pressão nenhuma, só sentia o abdômen pesado, o corpo, todo o peso do corpo sobre o abdômen, graças a sua vida difícil conseguia ter um corpo mais ou menos, não era grande coisa, e não ligava para o que era, ele sabia da sua capacidade e não contava vantagem sobre isso, mulheres não gostam que contem vantagem, não…Elas gostam ao pé do ouvido, quando se sussura as suas vantagens, e o desejo as faz pedir para mostrar. Disso ele sabia, sabia desde de muito cedo, o copo de água perto da janela refletia o sol opaco que fazia lá fora, um tempo cinzento, um quarto com tijolos a vista, não tinha acabamento, gostava de plástico, se pudesse seria de plástico, entretanto algumas vezes, ele virava metal, rígido e inflexível, tanto fisicamente, e esse era um dos momentos em que acabara de ser metal, o corpo nu de uma mulher estendido na sua cama, qual era mesmo o nome dela? Os lábios bezuntados de batom, carmim como se a boca dela fosse feita de sangue, talvez tivesse lhe dado alguns tapas ou socos, e o que via não era batom, e sim um resquício de sangue que lhe escorreu da boca, a memória era turva, sempre ficava turva após esses momentos, só conseguia sentir, a sensação de que alguém escorregou pelo seu corpo todo, e a pressão que foi feita, durmia como um anjo e estava na sua cama, com as pernas a mostra, o lençol escondendo os seios, tocou a perna com as pontas dos dedos, era de verdade. As paredes com seus tijolos não cantavam nenhuma canção, ou hino de agradecimento pelo espetáculo que haviam presenciado, uma decisão a ser tomada, um café para dois, alguma coisa para comer…e o prato principal, o sabor de apreciar o corpo vivo e em movimento da outra pessoa, e quem sabe descobrir seu nome, teria de ser cauteloso.
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