“…Certamente era virgem, e toda a malícia estava em sua própria cabeça, em sua deletéria luxúria. Mas também pensou: ela durmiu, a potranquinha sedutora teve medo e durmiu. Impressionou-se com a raiva que sentia, mas em seu estômago houve um certo alívio. Andou para o banheiro, dizendo-se que logo voltaria e haveria de dormir, e então ouviu o ruído da menina mexendo-se na cama. Deu meia-volta e espiou pela porta entreaberta.
Araceli tinha os olhos fechados, o rosto de frente para a janela e para a lua. Seminua, apenas uma reduzida tanga apertava seus quadris delgados. O lençol revolto cobria uma perna e descobria a outra, como se o tecido fosse um difuso falo a saquear-lhe o sexo. Braços cruzados nos seios, parecia dormir sobre o antebraço esquerdo. Da porta, Ramiro a contemplava, quieto, estonteado ante tanta beleza. Respirava pela boca, que secou-se ainda mais, e logo se apercebeu da ereção paulatiana e irreversível, do tremor de todo o seu corpo.”
Arremesou o livro no chão que caiu com as folhas dobradas vincando-as, caiu inerte como um peso de papel um peso de papel feito de papel, sentiu inveja de Ramiro por alguns segundos e pensou : eu o inventei. Sabia do que estava falando e como essa história iria acabar já tinha lido esse livro tantas vezes que perdeu a conta, os tijolos vermelhos agora envernizados brilhavam refletindo a pouca luz que gostava, uma televisão pequena desligada da tomada logo em sua frente servia como um espelho escuro conseguia ver seu reflexo deitado na cama de lençol quadriculado sem forma, embolado como se tivesse levado uma surra e foi isso mesmo que aconteceu. Nessa noite de sono turbulenta talvez ele tenha se engalfinhado com o lençol e apertado ele como nunca apertou uma mulher, mas essa que o veio visitar no sonho não era uma mulher comum, era a mulher que já o queimou por dentro tantas vezes que já perdeu a conta, cada queimadura em uma intensidade diferente, ela simplesmente podia sugá-lo com toda sua boca para dentro da sua alma e faze-lo passear pelas suas entranhas como se fosse o passeio mais lindo, como podia fazer com que ele chorasse sangue e vomitasse lava de um vulcão a muito ativo. Levantou-se foi até o banheiro procurou duas aspirinas e as engoliu, abriu a torneira da pia e deixou a água correr livremente e depois de alguns segundos lavou as mãos e as esfregou no rosto, lavou os olhos com a água gelada por muito tempo, não conseguia pensar e de fato não o queria.